Sábado, 18 de Maio de 2013

[Europa League Final] Chelsea 2-1 Benfica: A Aventura Amesterdão

Desaparecido do blogue, mas nunca afastado do Benfica. Esta época, salvo raríssimas excepções (por exemplo, o jogo caseiro frente ao Braga por motivos de férias), não tenho perdido um jogo na Luz. Quando se proporcionou a hipótese de ir a Amesterdão, acompanhar o clube do meu coração a uma final europeia, não hesitei: tinha de estar presente num evento desta importância. Assim, esta crónica persegue dois objectivos: por um lado, partilhar com os leitores, muitos deles amigos e conhecidos, a experiência vivida; por outro lado, deixar um testemunho histórico que mais tarde possa recordar. O texto será dividido por diversos capítulos, suportado por algumas fotos que dão colorido a esta aventura. Espero que gostem!

Os preparativos

Logo na noite após o 3-1 diante do Fenerbahçe, comecei a magicar qual a melhor maneira de ir a Amesterdão. Para ser mais preciso, semanas antes andava já a pesquisar alguns cenários nos Skyscanner desta vida, tendo concluído que os preços das deslocações aéreas aumentavam de dia para dia. Como a marcação dos dias de férias prometiam algum embaraço, na sexta-feira de manhã perdi a cabeça e avancei para um charter de ida e volta no dia do jogo. A mola impulsionadora foi a seguinte: em primeiro lugar, o facto de nunca ter ido ver um jogo do Benfica ao estrangeiro e, em segundo lugar, a lembrança da final dos penaltis com o PSV (com 13 anos) e a final do golo solitário de Rijkaard (com 15 anos). Ou seja, agora com 38 anos de idade, 23 anos depois da última final, e sem saber quando será a próxima, a única certeza que tinha era que desta vez não iria falhar.


Os dias antes da viagem

Posto isto, reservei o charter e fiquei motivadíssimo para a jornada europeia que ia (íamos viver). Por pouco tempo. No sábado, após ter conhecimento da forma como os bilhetes iam ser colocados à venda, temi pelo acesso ao ingresso mais desejado. Como sou sócio com Red Pass (normal), comecei fortemente a stressar com a possibilidade de não conseguir bilhete. Sábado. Domingo. Segunda. Terça. Vários dias angustiado com o receio de que não conseguiria cumprir o sonho. Felizmente, diria que quase no sprint final, com a ajuda de amigos que impecavelmente se disponibilizaram, e preocuparam para ajudar, consegui na quarta de manhã o tão desejado voucher que permitiu, mais tarde, levantar o bilhete que a foto documenta. Aos que aturaram o meu estado de ansiedade nesses dias, e me ajudaram a tornar realidade a aventura Amesterdão, o meu muito obrigado.

15 de Maio de 2013: a partida de Lisboa

O voo estava marcado para as 08h30, com o requisito de estar no aeroporto por volta das 07h00. Nessa manhã, acordei às 05h30 e, ao contrário de outros dias, a cama mais parecia um trampolim, pelo que me levantei num impulso elástico, com uma energia fácil de entender. Já no aeroporto, e na hora marcada, tempo para uma breve troca de impressões com a pessoa da agência que nos iria acompanhar (aproveito para agradecer toda a organização e logística da operação) e para um pequeno-almoço retemperador para a viagem que se avizinhava.


15 de Maio de 2013: a chegada a Amesterdão

Inicialmente, estava previsto chegar à cidade que iria acolher milhares de benfiquistas ao meio-dia. No entanto, houve um ligeiro atraso na partida de Lisboa e só aterrei perto das 13h00. Nesta altura, também por razões de segurança, a impaciência tomou conta dos passageiros, porque estivémos retidos longos minutos até a chegada do transfer que nos levaria até à zona do Museum Square. Assim, o plano que estipulei com os meus companheiros de viagem foi o seguinte: mal estivéssemos por nossa conta, íamos rapidamente almoçar para depois percorrer algumas das zonas mais centrais e turísticas da cidade.


15 de Maio de 2013: em Amesterdão

A primeira impressão foi positiva. A cidade é, realmente, magnífica. Sente-se uma espécie de harmonia, um ritmo de boa onda, talvez pelo ar descontraído dos holandeses, que circulavam para todo o lado nas suas já famosas bicicletas. Depois, observar as ruas ordenadas na sua simplicidade, com edifícios belíssimos, não muito altos naquela zona mais central, e tudo salpicado com canais e pontes que dão um toque especial à denominada Veneza do Norte.

Após uma série de fotos em movimento, pausa para almoço num restaurante argentino perto da Rembrandt Square que serviu para reforçar calorias para o resto do dia. Tudo perfeito, a preços não muito diferentes dos praticados em Lisboa. Contudo, o relógio já marcava 15h00, sabia que tínhamos de estar de volta ao Museum Square às 18h00, para o transfer que nos iria levar ao Arena, pelo que havia que apressar o passo em direcção à Dam Square. 


Em passo frenético, sem destino certo, fomos descendo até Damrak, em direcção à Central Station e começámos a virar à direita, entre ruelas planas que faziam lembrar um pouco o Bairro Alto, sem subidas e descidas acentuadas, no intuito de observar a zona intitulada De Wallen (Red Light District). Ao longo do percurso, diga-se que o mar de benfiquistas impressionava: em todo o lado se viam camisolas e cachecóis vermelhos. Em cada esquina, em cada rua, uma quantidade enorme de lojas, pessoas, cafés, bicicletas, numa espécie de caos controlado, uma confusão melodiosa, entre cheiros reconhecíveis e sons familiares de Benfica, Benfica, Benfica. Era altura de uma cerveja para matar a sede.


Enquanto caminhava, comecei a avistar alguns grupos de ingleses afectos ao Chelsea, com as suas habituais large beers nas mãos, enquanto o nome de José Mourinho não era esquecido. Ainda assim, continuava a ver com os meus próprios olhos que, ao contrário do que se fazia prever, os benfiquistas tinham invadido a cidade de amesterdão.


Por ali andei um bom bocado, a fintar pessoas e bicicletas, tendo-me cruzado com caras conhecidas, como Abel Xavier e Veloso, por exemplo. Foi aqui que comecei a viver mais intensamente a partida propriamente dita, e a afastar-me do papel de turista, que estava a deambular sem destino, de máquina fotográfica em punho. Tinha chegado a hora de ir para o Arena de Amesterdão, não sem antes uma última picture de recordação.


15 de Maio de 2013: a chegada ao Arena

Em primeiro lugar, voltar a referir que a organização teve nota elevada. O transfer até ao estádio decorreu sem problemas e todos os autocarros, e eram muitos, ficaram estacionados num parque situado 10 minutos a pé do Arena. Para tal, referir também o staff de apoio local, desde forças de segurança, até ao pessoal de trânsito. Sabendo que na próxima época o Estádio da Luz vai acolher a final da Champions League, julgo que teríamos alguns ensinamentos a retirar do planeamento e execução desta logística.


Por esta altura, junto ao fun center do lado dos adeptos encarnados, umas vezes combinado, outras nem tanto, foram acontecendo encontros com vários amigos, desde o Ricardo Silveirinha, do blogue Ontem vi-te no Estádio da Luz, passando por dois colegas de trabalho, até outros companheiros sempre presentes na nossa Catedral. Troca de impressões sobre a viagem, brilhozinhos nos olhos de quem esperava uma conquista europeia, imensa ilusão pontuada por abraços e sorrisos cúmplices. O tempo foi passando e, cerca das 19h15, o Amsterdam Arena resolveu dizer Welkom in.


À entrada, a sensação de conforto, de estarmos em família, já com os cânticos a ecoar na cabeça e a palavra Benfica a ritmar o batimento cardíaco. Emoção. Identidade. Sentimento de pertença. O cérebro dava ordens para as pernas andarem, mas todos nós naquele momento éramos coração. É então que surge uma visão magnífica, mais propriamente do que se passava no Zuid H.



15 de Maio de 2013: o jogo

Dentro do Arena, a primeira impressão partilhada com um amigo foi, mais ou menos, a seguinte: "sim senhor, o estádio é bonitinho, a cobertura é uma obra de engenharia interessante blá blá blá, os dois enormes écrans de cada lado têm muita pinta, mas estas cadeiras às cores e o facto da lotação rondar os 52.000 espectadores... isto, no fundo, é um Alvalade e vamos partir isto tudo".




O jogo começa, os pulmões enchem-se de ar e a minha voz encontra eco em milhares de outras que comigo partilham a emoção de podermos vir a presenciar um feito marcante na história do clube. A entrada foi à Benfica: com dinâmica, com garra, com vontade. Foram 15 minutos espantosos. Empolgantes. Como nem sempre acontece, nunca senti os adeptos tão próximos da equipa, numa sintonia homogénea, onde novos e velhos, homens e mulheres, todos juntos, empurravam aqueles onze heróis para cima da baliza dos ingleses. Lamentavelmente, ou é o último passe que falha, ou o remate que sai defeituoso e a bola, altiva e caprichosa, rainha máxima deste jogo capaz de nos transmitir as maiores alegrias, e as maiores tristezas, não chega a entrar. Apito para o intervalo.

Enquanto descia as escadas do sector 427, mais um reencontro com uma cara conhecida, desta feita o Pedro Ferreira, da Tertúlia Benfiquista. A opinião era comum: estávamos a ser superiores em todas as frentes, os adeptos nas bancadas, os jogadores no terreno de jogo. Um exibição avassaladora, a deixar o ainda campeão europeu em título à beira de um ataque de nervos. Só a estupenda defesa de Artur a um remate do incontornável Lampard (uma espécie de Rui Costa deles) nos fez tremer um bocadinho. Despedimo-nos com um abraço e com a ilusão de que podíamos, e merecíamos, ser felizes.

A segunda parte dava para escrever um livro. Ainda hoje não consigo expressar por palavras o que vivi, e senti, durante aqueles 45+ 3 minutos fatídicos. Julgo que daqui por 10, ou 20 anos, me hei-de lembrar do golo anulado ao Cardozo, do remate (quem mais?) de Lampard à barra, do golo de Fernando Torres, da forma selvática como festejei o penalty marcado pelo nosso 7, do golo quase em slow motion de Ivanovic e do desespero daquele lance final. Tudo isto no meio de milhares e milhares de benfiquistas unidos à espera da felicidade que não quis aparecer.




15 de Maio de 2013: o fim da viagem

Agora, sei o que sentiram os adeptos do Milan quando deixaram fugir o troféu para o Liverpool, depois de estarem a vencer por 3-0 ao intervalo. Agora, sei o que sentiram os adeptos do Bayern de Munique quando deixaram fugir a taça para o Manchester, depois de estarem a ganhar 1-0 até quase ao fim da partida. Agora, após vivenciar aquela tragédia em forma de jogo de futebol, reconheço o sentimento. A cabeça andava à roda. O coração batia incessantemente. Naqueles instantes, recordei-me de outras finais perdidas, como um flash de amargura e tristeza. Lembrei-me de outros amigos ali presentes, e de tantos outros que não tiveram oportunidade de estar no Arena, e pensei no que estariam a sentir naquele preciso momento. Olhei em volta e vi Benfica. E, mesmo no infortúnio daqueles minutos finais, senti que todos, dirigentes, técnicos, jogadores e adeptos, estávamos mais unidos do que nunca. Como se milhares de personalidades, experiências e identidades convergissem numa só. Viveu-se a mística encarnada. Quem lá esteve, sabe bem do que falo. Foi isso que me deu força e discernimento para confortar quem estava próximo. Porque senti esse espírito intangível que explodiu da energia de toda aquela gente que ama o mesmo clube que eu. Uma espécie de energia cósmica que me sossegou a alma. No fim, orgulho. Repito: orgulho em defender este emblema. O meu benfiquismo saíu reforçado.


Para terminar, uma analogia que serve de conclusão. Se pensarmos o clube, a equipa, como um edifício, diria que o Benfica atingiu um patamar (andar) bastante alto, embora ainda não tenha chegado ao topo (telhado). Estamos, talvez, a três ou quatro lances de escada do céu.

Isto porque, e há que tentar ser justo e verdadeiro com a realidade, faltam alguns detalhes que precisam de ser limados: acertar o posicionamento institucional no panorama nacional (relacionamento com os orgãos que regem o nosso futebol e com os dirigentes, treinadores e jogadores de outros clubes); promover uma comunicação interna e externa mais assertiva e complementar à ideal global para o futebol; planear com mais pormenor a construção do plantel na pré-época desportiva, de forma a colmatar posições carenciadas e dotar o grupo de maior homegeneidade qualitativa; e, por fim, para além de um modelo de jogo assente num futebol explosivo e esteticamente aliciante, treinar e implementar alternativas estratégicas de maior controlo táctico/emocional que tornem o colectivo mais preparado para enfrentar os mais variados desafios.

Porém, e usando também de um sentido de justiça, há que afirmar peremptoriamente que ainda há não muito tempo o Benfica vivia pouco acima do rés-do-chão. Alguns anos atrás, olhava-se para a conjuntura do momento e havia a perfeita noção que muitos lances de escada tinham de ser percorridos. Ao contrário de outras agremiações desportivas vizinhas que, praticamente, vivem numa cave baforenta, sem a luz do sol que os ilumine, nós podemos dizer que ultrapássamos muitos obstáculos, subimos muitos andares e estamos numa posição em que competimos com os melhores. Há que aproveitar este capital futebolístico, que foi sendo lentamente conquistado, e não pretender alterar as fundações (mudar de treinador; modificar substancialmente o plantel) que demoraram anos a ser construídas. Cada vez mais, aproximamo-nos do telhado. Não provoquemos, agora, uma queda acentuada de vários lances de escada. Um dia, tocaremos o céu.

Este, foi o meu testemunho. Viva o Benfica! Viva o BENFICA! VIVA O BENFICA!

Sexta-feira, 3 de Agosto de 2012

Homem da Táctica

Sozinho na noite
um clube ruma para onde vai.
Uma luz no escuro brilha a direito
ofusca as demais.

E mais que uma bola, mais que um pontapé...
Tentaram prendê-lo impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a tempestade,
vai quem já nada teme, vai o homem da táctica...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o estádio e partir,
a liga é sempre a perder...

No fundo do mar
jazem os outros, os que lá ficaram.
Em dias cinzentos
descanso eterno lá encontraram.

E mais que uma bola, mais que um pontapé...
Tentaram prendê-lo, impor-lhe uma fé...
Mas, vogando à vontade, rompendo a tempestade,
vai quem já nada teme, vai o homem da táctica...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o estádio e partir,
a liga é sempre a perder...

No calendário horizonte
sopra o murmúrio para onde vai.
No calendário do tempo
foge o título, é tarde demais...

E uma vontade de rir nasce do fundo do ser.
E uma vontade de ir, correr o estádio e partir,
a liga é sempre a perder...

Quarta-feira, 1 de Agosto de 2012

Anda Comigo Ver Os Campeões

Anda comigo ver os campeões
Levantar voo,
A rasgar os flancos,
Rasgar o céu.

Anda comigo ao estádio do Leixões
Ver os jogadores
A levantar ferro,
Rasgar o mar.

Um dia eu ganho a liga,
Ou faço uma magia,
Mas que eu morra aqui.
Vieira tu sabes o quanto eu te amo,
O quanto eu gosto de ti.
E que eu morra aqui
Se um dia que não te levo a Champions
Nem que eu leve a Uefa até ti.

Anda comigo ver os automóveis,
A Alverca,
A rasgar as curvas,
Queimar pneus.

Um dia vamos ver os laterais levantar voo,
A rasgar os flancos,
Rasgar o céu.

Um dia eu ganho o totobola,
Ou pego na pistola,
Mas que eu morra aqui.
Vieira tu sabes o quanto eu te amo,
O quanto eu gosto de ti.
E que eu morra aqui
Se um dia eu não te levo ao Jamor
Nem que eu roube a Federação só p'ra ti.

Um dia eu ganho o totobola,
Ou pego na pistola,
Mas que eu morra aqui.
Vieira tu sabes o quanto eu te amo,
O quanto eu gosto de ti.
E que eu morra aqui
Se um dia que não te levo a Champions
Nem que eu leve a Uefa até ti.

Domingo, 20 de Maio de 2012

A escolha de um caminho desportivo

Poucas horas passadas após o Chelsea conquistar a (sua primeira) prova máxima de clubes, dei por mim a pensar que há muitas maneiras de vencer. Não me refiro a arbitragens escabrosas, antes porém a distintas filosofias desportivas que vão muito para além da escolha do treinador e do plantel. Não deixa de ser curioso que, de um ano para o outro, de Barcelona a Londres, exista um tão curto espaço de tempo entre dois caminhos desportivos. Como se viu, ambos com sucesso.

Se pensarmos, apenas, nos semi-finalistas deste ano, conseguimos vislumbrar, para lá das naturais particularidades tácticas, características estruturais que conferem um ADN diferente a cada emblema. Senão vejamos. O Real Madrid adopta uma estratégia 'galáctica', ou seja, aposta milionária em craques de cariz ofensivo, de forma a potenciar o merchandising e garantir espectáculo aos adeptos. Por sua vez, o arqui-rival Barcelona, sem deixar de cirurgicamente contratar talento, exprime uma ideia de clube baseada na 'cantera' e num modelo de jogo admirado em todo o mundo. Em traços sucintos, o conceito é este. Depois, o Bayern de Munique mostra insistir numa fórmula, diria, quase pré-Bosman, com um onze marcadamente nacional, onde as grandes figuras (Lahm, Schweinsteiger, ou os mais novos Neuer, Kroos, Müller, entre outros) funcionam como um forte elo de ligação com os adeptos. Numa sociedade marcada pela globalização, resulta quase estranho ver que do onze titular, oito eram alemães. A memória da história, transportada para o tempo presente. Por fim, chegamos ao vencedor deste ano: o Chelsea. À primeira vista, talvez mais parecido, na sua génese 'milionária', com o Real Madrid. Contudo, enquanto a equipa espanhola tem um prestígio centenário, e uma ideologia algo tradicionalista em questões de discurso e imagem, a equipa inglesa é o expoente máximo do futebol moderno. A entrada de capital estrangeiro, personificada no mediático Abramovich, traduziu-se em investimento de milhões. Já agora, sabiam que o presidente do clube chama-se Bruce Buck? O Chelsea representa uma espécie de 'football manager' real, com os milhões a comandarem o sonho de transformar um clube, igual a tantos outros, numa equipa preparada para as maiores conquistas. Por fim, esta época, conseguiram retirar dividendos desportivos dessa aposta.

Bem, mas para quê esta conversa toda? Porque, por vezes, é interessante pensar que o futebol é mais do que técnicos e jogadores, quando existe uma estrutura directiva que arquitecta um planeamento, uma estratégia, um caminho para, no fundo, ser o melhor em competição. E, claro, para chegar ao Benfica. Tenho andado a ler muito a blogosfera e, confesso, as conversas andam um bocado para o aborrecido. Demasiado centradas no indivíduo: jogador "X", treinador "Y", presidente e/ou (suposto) candidato "Z". Durante o dia, leio muitos argumentos, na sua maioria bem escritos, não ponho em causa, embora também excessivos na linguagem entre os anti e os pró-Vieira. Um confronto entre benfiquistas "keyboard warriors", em que a forma se superioriza à substância. Obviamente, a liderança pode, e deve, ser questionada, mas o que gostava de ver debatido eram ideias. Ideias de um caminho desportivo, baseado numa estratégia que esteja acima dos meandros tácticos do treinador. Um verdadeiro rumo para o clube, capaz de conciliar a saúde financeira com o sucesso nos relvados. Face aos exemplos que dei anteriormente, e sabendo de antemão que o Benfica apresenta um traço genético inimitável, com que ideologia futebolística mais se identificam? Qual a que mais admiram? Gostariam, por exemplo, de repetir a fórmula do Bayern, contando com vários portugueses no onze titular, alguns com vários anos de águia ao peito? Ou, pelo contrário, preferiam uma filosofia com uma aposta baseada na 'cantera', transportada para um modelo de jogo tipo Barcelona? Seria possível "copiar" (com tudo o que a palavra implica) os aspectos positivos, sem desvirtuar a cultura existente? Viam com bons olhos a entrada de um magnata, capaz de dotar o plantel de mais-valias qualitativas inquestionáveis? Eu diria, e o leitor deve estar a pensar o mesmo, que o Benfica tem de pensar e percorrer o seu próprio caminho. Evitando que termine num precípicio. Num ciclo sem retorno. Que estratégia institucional? Que política de activos? Que caminho desportivo? Futuro, precisa-se.

Domingo, 6 de Maio de 2012

Obrigado NN



Obrigado pelo apoio ao longo de uma época com maiores tristezas que alegrias. Obrigado por estarem sempre presentes em todos os estádios do país: quer faça chuva, quer faça sol. Sem querer nada em troca. Apenas pelo Amor ao Benfica. Obrigado por cantarem, gritarem e defenderem o nome do clube acima de tudo. Obrigado por pensarem Benfica 24 horas por dia. Obrigado por viverem Benfica 7 dias por semana. Por terem no coração a glória de um passado. Por partilharem na voz a força de uma esperança. Obrigado pela exigência, pela perfeita consciência que um emblema desta dimensão merece mais e melhor. Obrigado pela fidelidade e paixão a um símbolo com uma história grandiosa, que mostram conhecer e saber respeitar. Obrigado pelos quilómetros percorridos e noites mal dormidas. Na adrenalina da vitória. Na frustração da derrota. Obrigado pela bandeira do Cosme. Pelo reconhecimento de quem merece. Pela gratidão aos jogadores, mas sempre tendo a consciência de que a instituição representa um bem maior. Obrigado por estarem do lado certo. O lado da mudança. Uma mudança de regresso às origens, com valores assentes numa mística de conquistas que não se explica, mas que se sente. Conquistas feitas de sangue, suor e lágrimas. Com determinação. Com humildade. Com grandeza nas vitórias. Com orgulho nas derrotas. À Benfica. Sem vergonha. Obrigado pelo apoio, pela crença, pela convicção num ideal pintado de vermelho e branco. Obrigado por tudo. Nota final: o meu Red Pass está no piso 3 da bancada Sagres; o meu Benfica encontra-se no piso 0, junto de todos vocês.

Segunda-feira, 30 de Abril de 2012

Sexta-feira, 13 de Abril de 2012

O Benfica em 1926: Cosme Damião e Ribeiro dos Reis

Em 1926, um ano após a inauguração do Estádio das Amoreiras, o poder de Cosme Damião dentro do Benfica será, pela primeira vez, desafiado e contestado. A sua obra e o seu papel dentro do clube serão questionados em Assembleia-Geral por um grupo de oposicionistas, liderados por Ribeiro dos Reis, que pretendiam liderar os destinos do clube com uma dinâmica mais progressista.

O futebol mudara. O Benfica mudara. Novos tempos se avistavam, completamente diferentes dos tempos de jogador de Cosme. Alguns associados sentiram que o clube tinha uma organização rudimentar e de certa forma desajustada aos novos tempos, e resolveram concorrer contra a lista de Cosme, que era encabeçada por Bento Mântua. Sentiam que o Benfica estava demasiado centralizado na pessoa de Cosme e que era necessário uma revolução dentro do clube. Não porque achassem que Cosme Damião era incompetente ou desonesto. Não, muito pelo contrário. A lista oposicionista achava, isso sim, que o Benfica necessitava de uma gestão mais complexa, pois não poderia continuar a ser gerido por uma só pessoa. Todavia, reconhecendo as competências e a enorme importância de Cosme Damião, a lista oposicionista convida-o para encabeçar a lista, algo que ele rejeita. Como homem de honra que era, Damião recusa entrar em qualquer lista que não aquela em que estava desde 1917 a ocupar vários cargos.

Desta forma, em Assembleia-Geral de 5 de Agosto de 1926, apresentam-se duas facções a concorrer para a liderança do clube encarnado. De um lado, a falange designada de tradicionalista, encabeçada por Bento Mântua mas liderada, na prática, por Cosme Damião. E do outro lado, uma falange mais revolucionária, liderada por Ribeiro dos Reis e com nomes como Ávila de Melo e Vítor Gonçalves. A primeira representava a direcção que estava em posse desde 1917, e que tinha sido a principal responsável pela construção do Estádio das Amoreiras, enquanto a segunda representava a ala revolucionária que queria dotar o clube de uma nova organização. Eram duas concepções completamente distintas daquilo que deveriam ser o futebol e o Benfica.

De uma forma genérica, podemos considerar a facção de Cosme como conservadora, amadora e de continuidade. A outra era uma corrente progressista, mais profissional e de ruptura. A bandeira de Ribeiro dos Reus assentava na frase «Basta de irresponsáveis». A de Bento Mântua tinha como lema «Cosme forever». No epicentro das divergências estavam duas coisas fundamentais: as Amoreiras e o profissionalismo, para além de uma concepção completamente diferente sobre a organização do futebol encarnado. O Benfica e a direcção de Mântua tinham realizado um enorme esforço financeiro para a construção das Amoreiras, tendo de recorrer a empréstimos e avultadas dívidas. Apenas assim foi possível construir uma obra que simbolizasse a força associativa do clube. Contudo, se o Benfica possuía, finalmente, um estádio com a dimensão que o prestígio já lhe exigia, a sua equipa de futebol atravessava uma grave crise na década de 20. O Benfica, habituado a vencer desde 1910, encontrava-se nos anos 20 ultrapassado no plano desportivo, não só pelo Sporting, que entra numa senda de vitórias, mas também pelo recém-criado CF «Os Belenenses». Isto inquieta os sócios. Não só as dívidas do clube, mas também a falta de vitórias.

(...) A lista liderada por Ribeiro dos Reis acaba por vencer as eleições. Tinha, de facto, uma linha mais actual e mais consonante com a realidade do futebol dos anos 20.


Serrado, R (2010) "Cosme Damião: O Homem Que Sonhou o Benfica", Zebra Publicações, págs. 108-112.

108 Anos de História.
59 Treinadores de Futebol.
34 Presidentes da Direcção.
8 Estádios:
Terras do Desembargador 1904-1907;
Quinta Feiteira 1907-2913;
Sete Rios 1913-1917;
Benfica 1917-1922;
Amoreiras 1925-1940;
Campo Grande 1941-1954;
Estádio da Luz 1954-2003;
Novo Estádio da Luz 2003-.

Ontem. Passado. Hoje. Presente. Vento da mudança. Medo de quê?